Quase dois anos após a queda de um avião da Voepass no interior de São Paulo, que causou a morte de 62 pessoas, a Polícia Federal deve apresentar, na tarde desta quinta-feira (6), o relatório final do Inquérito Policial que apurou as circunstâncias do acidente. A divulgação das conclusões é uma etapa crucial para a transparência e segurança na aviação.
Os aspectos gerais do relatório serão apresentados durante coletiva de imprensa prevista para as 14h desta quinta (6) na sede da PF na capital paulista. A apresentação contará com a presença de autoridades, incluindo o superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, o delegado de Polícia Federal e chefe da Delegacia em Campinas, além do diretor do Instituto Nacional de Criminalística.
Relembre o caso da queda do avião da Voepass
A queda ocorreu em 9 de agosto de 2024, poucos minutos antes do pouso da aeronave, que fazia o voo 2283 entre Cascavel, no Paraná, e Guarulhos, em São Paulo. O avião, um ATR 72-500 de prefixo PS-VPB, tinha uma capacidade total de 74 pessoas, incluindo 62 passageiros.
Durante a aproximação a São Paulo, a aeronave perdeu rapidamente sustentação e caiu em um condomínio residencial em Vinhedo. Infelizmente, todas as 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, não sobreviveram. Este trágico acidente é considerado o maior da aviação comercial brasileira desde 2007, levantando questões sobre a segurança aéreas no país.
O relatório e as falhas identificadas na investigação
O relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) chegou à conclusão de que o acidente foi resultado de uma sucessão de falhas da empresa, da tripulação e da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). A análise revelou que a aeronave não deveria ter decolado nas condições em que foi liberada para o voo, devido à inoperância do sistema Airframe De-Icing, essencial para evitar o acúmulo de gelo nas asas.
Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, um dos investigadores, foram identificadas falhas no equipamento nos três voos anteriores ao da queda, mas esses problemas não foram devidamente relatados nos diários de bordo da aeronave, conforme exigido pela legislação. Esse descuido pode ter contribuído de maneira significativa para a tragédia.
Além disso, o relatório indicou que a empresa Voepass não adotou medidas eficazes para abordar esses eventos, resultando na normalização de desvios operacionais. Isso gerou uma diminuição da percepção de risco entre pilotos e gestores, estabelecendo uma cultura organizacional preocupante.
O documento também destacou falhas da Anac na supervisão regulatória. Apesar de a agência realizar ações de fiscalização antes do acidente, o relatório encontrou oportunidades de aprimoramento na vigilância da segurança operacional. Medidas como a ampliação da obrigatoriedade do Programa de Acompanhamento e Análise de Dados de Voo (PAADV) para todas as aeronaves ATR foram implementadas somente após a tragédia.
Consequências e futuro da aviação após a tragédia
O Cenipa analisou 1.206 voos realizados entre agosto de 2023 e a data da queda. O relatório reúne as conclusões de uma investigação técnica conduzida pela FAB (Força Aérea Brasileira) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Este tipo de investigação, segundo a Anac, tem um caráter preventivo e não visa a atribuição de culpa, mas a identificação de fatores que possam ser aprimorados nas práticas de segurança operacional da aviação civil.
Em resposta às conclusões do Cenipa, a Anac informou que iniciará uma análise técnica detalhada das recomendações e de suas competências. A entidade enfatiza a importância da transparência e do aprendizado a partir de incidentes para melhorar os protocolos de segurança.
O acidente com o voo 2283 da Voepass destaca a necessidade de rigorosos padrões de segurança na aviação, reforçando a importância da inteireza dos processos de manutenção e do registro adequado de falhas operacionais. As lições aprendidas com essa tragédia terão um impacto duradouro na formação de políticas de segurança para a aviação brasileira.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
