Todo ano, a descida dos rios amazônicos testa a capacidade de quem precisa levar cargas ao interior do Amazonas. Para a distribuição de energia elétrica, o desafio é ainda maior: sem poste, cabo, transformador ou combustível no lugar certo, uma falha simples pode deixar uma cidade no escuro por dias. Foi pensando nisso que a Âmbar Energia criou a Operação Vazante.
A concessionária, que assumiu o serviço em abril de 2026 no lugar da Amazonas Energia, começou a operação em maio, antes do pico da estiagem. A ideia é não esperar a emergência. No Amazonas, deixar o transporte de equipamentos para depois pode significar ter de aguardar a próxima cheia.
Balsas na frente da seca
Segundo a empresa, cerca de 1.350 toneladas de materiais, entre postes, transformadores, cabos, cruzetas e componentes de manutenção, foram levadas aos 61 municípios do Estado, cobrindo as nove calhas de rios. Uma balsa deixou Manaus em 30 de maio com destino às cidades das calhas do Juruá e do Japurá, e a operação já soma mais de 15 viagens de balsas e ferry boats.
O trabalho é acompanhado de perto. Equipes verificam diariamente o nível dos rios e a situação dos portos, antecipam remessas e procuram caminhos alternativos quando um trecho deixa de ser navegável. A Âmbar afirma ter mobilizado centenas de trabalhadores, de eletricistas a profissionais do transporte fluvial, e ter alinhado ações preventivas com a Defesa Civil do Amazonas.
Cidades que vivem de usinas próprias
A dependência dos rios tem uma explicação. Muitos municípios do interior não estão conectados ao Sistema Interligado Nacional e produzem a própria energia em usinas locais. Nesse modelo, até o combustível que move os geradores chega pela água.
Parintins é o exemplo de como uma obra muda essa realidade. Ligada ao sistema nacional em 2023, a cidade deixou de precisar da usina térmica a diesel que a abastecia. Nas localidades que seguem isoladas, a logística de abastecimento continua indispensável.
Mais que transporte
A chegada do material ao município não encerra o trabalho. Em Humaitá, às margens do rio Madeira, um plano acompanhado pela Defensoria Pública prevê a substituição de 39 postes e 262 cruzetas, o reforço de 34 quilômetros de rede, a poda da vegetação próxima aos fios e mais equipes para a zona rural. São serviços comuns, mas decisivos onde cada deslocamento é longo.
A concessionária também busca as prefeituras: diz ter feito reuniões com 38 prefeitos e fechado 20 acordos com municípios, o que ajuda a definir prioridades e a organizar materiais e equipes conforme a necessidade de cada cidade.
Outra frente é aproximar a geração de quem consome. Em Manacapuru, uma termelétrica de 5 MW passou a reforçar o fornecimento no horário de maior demanda, quando cerca de 10% da população corria o risco de ficar sem luz todos os dias entre 18h e 23h, segundo a empresa. A Âmbar já havia comprado da Eletrobras, em 2024, usinas dos sistemas isolados em Anamã, Anori, Caapiranga e Codajás, e planeja sistemas híbridos, com térmica, solar e baterias, para 23 comunidades.
Os próximos passos
O pacote de investimentos anunciado soma R$ 5,5 bilhões até 2031, dos quais R$ 3,9 bilhões são recursos próprios. O dinheiro vai para expansão e revitalização da rede, subestações, retomada do Luz para Todos, troca de equipamentos e tecnologias de monitoramento, como medidores inteligentes e sensores capazes de apontar onde está a falha antes de a equipe sair.
A empresa também quer usar a tecnologia para reduzir as perdas. Pela estimativa da própria Âmbar, cerca de 44% da energia colocada na rede não é faturada, sobretudo por causa de desvios e ligações clandestinas. O dado é da companhia e não deve ser confundido com os índices regulatórios de perdas da ANEEL.
A melhora busca reverter os índices desastrosos de qualidade de serviço registrados pela antiga Amazonas Energia durante a gestão de Orsine Rufino de Oliveira.

