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Fronteira agrícola prefere EUA à China por razões estratégicas

Moradores da fronteira agrícola brasileira demonstram uma preferência por parcerias com os Estados Unidos, apesar da significativa dependência econômica da China em relação às exportações de produtos como soja e carne bovina. Essa percepção é reforçada por uma pesquisa realizada pela FGV RI (Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas) no fim de 2025, que revelou dados surpreendentes sobre a confiança dos moradores da região.

Os resultados mostram que 21,8% dos entrevistados consideram os Estados Unidos como “muito confiáveis”, enquanto apenas 12,6% atribuem essa mesma classificação à China. Essa discrepância de mais de nove pontos percentuais indica uma relação complexa entre confiança política e dependência econômica.

Notavelmente, a confiança na China caiu cerca de 20 pontos percentuais em comparação a 2017, um período em que as relações comerciais entre Brasil e China continuavam em expansão. Isso sugere que, embora a região dependa economicamente do mercado chinês, essa dependência não se traduz em maior confiança política.

A Dependência Comercial e a Confiança Política

Os pesquisadores destacam que a situação atual revela que a fronteira agrícola é capaz de negociar com a China sem depositar confiança no país, enquanto confia nos Estados Unidos sem depender economicamente deles. Essa dicotomia indica que confiança política e dependência econômica operam em lógicas distintas: “A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente”, observa Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores da pesquisa.

Esse posicionamento reflete uma determinada percepção sobre como as relações comerciais são percebidas por aqueles que vivem em regiões estratégicas do Brasil. Para os entrevistados, as trocas comerciais não são sempre um reflexo das relações políticas e podem, muitas vezes, ser realizadas com pragmatismo.

Ambivalência em Relação às Exigências da União Europeia

A pesquisa também aborda a percepção dos brasileiros em relação às exigências ambientais impostas pela União Europeia (UE). Embora a maioria dos entrevistados reconheça que adaptar-se a essas normas possa trazer benefícios estratégicos, há uma percepção clara de que essas exigências podem trazer custos econômicos, servindo mais aos interesses do bloco europeu do que aos do Brasil.

Segundo os dados, 74,3% dos entrevistados acreditam que cumprir os requisitos ambientais da UE fortaleceria a reputação internacional do Brasil. No entanto, 66,9% dos participantes temem que a conformidade com essas normas reduza a competitividade dos produtos brasileiros. Ademais, 61,5% afirmam que as regulamentações ambientais servem principalmente aos interesses econômicos da própria UE.

Os autores do estudo argumentam que essa ambivalência não é contraditória, mas indicada como uma “conformidade pragmática”. Os moradores reconhecem a necessidade de atender aos padrões europeus para manter o acesso a um mercado importante, sem que isso signifique um alinhamento de valores ou princípios.

Perfil Político da Região e Suas Implicações

Outro aspecto revelado na pesquisa é o perfil político da população da fronteira agrícola. Uma significativa maioria, 83,5%, identifica-se como pertencente à direita ou ao centro do espectro político, enquanto apenas 16,5% se consideram de esquerda. Essa configuração política impacta diretamente como os habitantes da região avaliam atores e modelos externos, como os Estados Unidos, a União Europeia e a China.

Além disso, 55,9% acreditam que o governo interfere excessivamente na vida das pessoas, e 64,3% opina que a regulação estatal dos negócios tende a gerar mais efeitos negativos do que positivos. Essas percepções moldam a avaliação sobre políticas externas que poderiam beneficiar ou prejudicar a região.

A pesquisa indica que a crescente relevância eleitoral da fronteira agrícola, que representa aproximadamente 15% do eleitorado nacional, pode ampliar o peso político da região nas discussões sobre política externa e nas relações com potenciais parceiros, como Washington, Pequim e Bruxelas. Matias Spektor destaca que uma política externa que assume que a fronteira agrícola se alinhará politicamente com um parceiro específico, com base apenas em interesses comerciais, seria uma interpretação simplista da realidade complexa dessa região.

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