A experiência de Joana Rodrigues Mousinho e Luena Maria Ferreira dos Santos, ambas reconhecidas pela FAO, destaca o papel das mulheres na pesca artesanal no Brasil. A atuação delas, que abrange a defesa da pesca sustentável e a organização comunitária, é um exemplo de empoderamento feminino no setor rural.
Joana, com 70 anos, e Luena, de 44, foram homenageadas em Roma, na Itália, durante o Fórum Mundial da Alimentação, juntamente com outras 98 mulheres de diferentes partes do mundo. O reconhecimento é fruto de suas contribuições significativas aos sistemas agroalimentares e ao desenvolvimento rural.
A seleção delas foi feita pelo Ministério das Mulheres, recebendo mais de 600 candidaturas de 131 países. Ambas as mulheres são um símbolo da luta por direitos e visibilidade para as pescadoras artesanais, promovendo mudanças que beneficiam suas comunidades e reconhecem o papel das mulheres em suas atividades.
Joana Mousinho: A Pioneira da Pesca Artesanal em Pernambuco
Natural de Pernambuco, Joana Mousinho é uma das primeiras mulheres a se destacar na pesca artesanal. Desde a infância, ela pesca no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma, onde construiu uma carreira sólida na captura e comercialização de diversas espécies marinhas. A trajetória de mais de seis décadas de Joana é marcada pela luta por direitos e pela visibilidade das mulheres no setor.
Ela foi pioneira ao obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores. Joana também contribuiu com a Fundação da Articulação Nacional das Pescadoras, movimento que atuou para fortalecer a presença das mulheres na pesca artesanal e reivindicar seus direitos.
Além disso, sua atuação abrange a defesa das comunidades pesqueiras e dos territórios costeiros, especialmente diante da expansão de empreendimentos que ameaçam esses espaços. Em 2024, ela se destacou ao receber o Prêmio Mulheres das Águas pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.
Para Joana, o reconhecimento internacional representa uma conquista coletiva. “Este reconhecimento da FAO incentiva as mulheres a lutar e a participar cada vez mais dos espaços de decisão, porque vemos que estamos ganhando visibilidade”, afirmou. Essa afirmação sublinha a importância do empoderamento feminino em comunidades tradicionais de pesca.
Luena Pataxó: A Voz dos Pescadores Indígenas
No sul da Bahia, Luena Pataxó se destaca pela organização dos pescadores indígenas e a promoção da cultura de sua comunidade. Como presidente da Apip (Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó), Luena atua ativamente na preocupação com a segurança no mar e na geração de renda para as famílias que dependem da pesca.
Sob sua liderança, a associação conseguiu expandir parcerias institucionais e implementar melhorias significativas para os pescadores locais. Uma de suas realizações notáveis foi a criação do Grupo de Trabalho Indígena Nacional e sua atuação em espaços de governança pesqueira, sempre priorizando práticas sustentáveis.
O trabalho de Luena foi reconhecido com o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, onde obteve destaque tanto a nível estadual quanto nacional na categoria Produtora Rural. Ela argumenta que a homenagem da FAO reflete a luta de todo seu povo. “A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas”, afirmou Luena.
A visão de Luena sobre a pesca artesanal é profundamente ligada aos conhecimentos tradicionais que orientam sua prática. “A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar”, compartilha, evidenciando a importância da sustentabilidade no seu trabalho.
O Papel das Mulheres na Pesca Artesanal e no Desenvolvimento Rural
A iniciativa da FAO que homenageou Joana e Luena busca visibilizar o trabalho das mulheres que atuam em diversas etapas da produção e distribuição de alimentos. Este reconhecimento ressalta a importância de amplificar os direitos e as oportunidades econômicas das mulheres, que ocupam 41% da força de trabalho mundial nos sistemas agroalimentares, muitas vezes enfrentando condições desiguais.
O papel dessas mulheres é crucial, não apenas para a economia local, mas também para a segurança alimentar e a resiliência das comunidades. Assim, a escolha de Joana e Luena não representa apenas suas histórias pessoais, mas a luta coletiva de mulheres ao redor do mundo na busca por igualdade e dignidade no trabalho.
No Brasil, Joana e Luena são integrantes do Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras, um espaço que visa atender às demandas dessas trabalhadoras essenciais. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que o reconhecimento traz visibilidade ao trabalho das mulheres da pesca artesanal e reafirma a necessidade de suas vozes nas decisões sobre políticas que impactam suas vidas.

