Pesquisar

Crise elétrica em Manaus se arrasta por anos e revela problemas que já existiam antes da chegada da Âmbar.

Crise elétrica em Manaus se arrasta por anos e revela problemas que já existiam antes da chegada da Âmbar.

Amazonas — O sistema elétrico do Amazonas enfrentou uma série de problemas operacionais e financeiros ao longo dos anos antes da intervenção da Âmbar Energia. Incidentes frequentes como apagões, incêndios em postes e explosões em subestações evidenciam uma infraestrutura que necessita de modernização abrangente. A mudança de controle, que ocorreu em 10 de abril de 2026, marcou o início de uma nova fase, mas o histórico de falhas expõe desafios estruturais de longo prazo que precisam ser abordados.

Causas e histórico

Os problemas de fornecimento têm raízes profundas: documentos regulatórios, relatórios financeiros e registros de órgãos de fiscalização revelam fragilidades acumuladas ao longo do tempo. A privatização da distribuidora em 2018, seguida pela gestão do grupo Oliveira Energia (associado a Orsine Rufino de Oliveira), agravou o endividamento e resultou em uma redução na capacidade de investimento, fatores que impactaram diretamente na qualidade do serviço prestado.

Casos emblemáticos

Incidentes notórios ilustram a gravidade da crise operacional. Em maio de 2024, Manacapuru ficou sem energia por aproximadamente 12 horas entre a tarde de sábado e a madrugada de domingo, afetando serviços como telefonia, internet e abastecimento de água durante as comemorações do Dia das Mães. Em abril do mesmo ano, interrupções impactaram hospitais, como o Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo, que teve dificuldades com geradores de emergência. Em agosto de 2024, incêndios em postes e eventos localizados, novamente, causaram cortes no fornecimento em várias áreas de Manaus.

Impacto financeiro e regulação

A crise se agravou financeiramente: ao final de 2025, a concessionária anterior acumulava uma dívida bruta de R$ 12,047 bilhões, dos quais R$ 11,421 bilhões eram de obrigações com a Eletrobras. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) monitorou o cenário regulatório e, em 2022, já havia emitido uma intimação devido a falhas que poderiam levar a medidas severas, como a recomendação de caducidade da concessão, caso não houvesse recuperação da sustentabilidade econômico-financeira.

Problemas no interior e danos por queimadas

No interior do estado, as frequentes interrupções e os danos causados por queimadas deterioraram ainda mais a situação: em Tefé, foram registradas 477 interrupções em um período de 18 meses (entre 2024 e o primeiro semestre de 2025). Em 2023, foram contabilizados 230 postes destruídos por fogo em 23 municípios, além de danos em aproximadamente 25 km de linhas.

Mudança de controle e nova etapa

Para enfrentar a crise, o processo de reestruturação da concessão foi intensificado. Em 10 de abril de 2026, a Âmbar Energia tomou posse oficialmente da Amazonas Energia e deu início a um programa de recuperação da estrutura e de modernização do sistema. A nova gestão divulgou planos e investimentos para revitalizar a rede e aumentar a confiabilidade do fornecimento.

Pressões atuais: demanda e estiagem

Atualmente, o sistema também lida com pressões crescentes de demanda e eventos climáticos adversos. Em 14 de setembro de 2026, Manaus atingiu um recorde histórico de demanda, com 1.997,1 MW às 21h27, superando marcas anteriores. O período de estiagem aumentou os riscos: entre janeiro e 9 de agosto de 2026, foram registrados 564 incêndios florestais em Manaus (em comparação com 133 no mesmo período de 2025) e 666 incêndios urbanos, agravando a vulnerabilidade da infraestrutura.

Desafios e perspectivas

O diagnóstico revela que a modernização deve ir além da simples troca de equipamentos: necessita de investimentos contínuos, combate às perdas, digitalização da rede, programas de prevenção contra incêndios e ações coordenadas entre a concessionária, o regulador e o poder público. A transição sob a nova gestão oferece a possibilidade de recuperação, mas a efetivação dos investimentos e a implementação de obras serão essenciais para garantir à população um fornecimento mais seguro, eficiente e previsível.