A Copersucar clinchou o primeiro contrato do mundo para fornecimento regular de etanol para barcos, no Porto de Santos, com planos de expandir a operação para 200 milhões de litros do biocombustível até 2027.
“Até o fim de 2026, planejamos pelo menos sete abastecimentos, com consumo total de aproximadamente 10 milhões de litros de etanol”, afirma Tomás Manzano, CEO da Copersucar, líder global na produção de açúcar e etanol.
A iniciativa é resultado de cerca de dois anos de desenvolvimento e testes. Em julho deste ano, a empresa realizou uma operação-piloto para avaliar a segurança, os procedimentos e os parâmetros técnicos do abastecimento.
As operações são realizadas em parceria com a CMA CGM, um grupo global de transporte marítimo e logística; a Bunker One, subsidiária do dinamarquês Bunker Holding, especializada em combustíveis marítimos; e a Autoridade Portuária de Santos (APS).
Segundo Manzano, outros operadores já haviam realizado testes com etanol, mas o contrato da Copersucar marca um novo padrão para o fornecimento regular dessa modalidade.
A operação passa de uma experiência inovadora a um modelo consistente de abastecimento e coloca o Porto de Santos e o Brasil em uma posição privilegiada no desenvolvimento de combustíveis marítimos de baixo carbono.
A meta da Copersucar para 2027 é atingir 200 milhões de litros, um volume 20 vezes maior do que o previsto para os últimos meses de 2026. Segundo o executivo, o objetivo ainda está em fase de planejamento.
Demanda global por etanol
O potencial de crescimento vai além do mercado brasileiro. Manzano afirma que o setor de combustíveis marítimos consome atualmente cerca de 270 milhões de toneladas de combustíveis fósseis.
“Se 10% desse consumo puder ser substituído por etanol, a demanda equivalente pode chegar a 50 bilhões de litros do biocombustível”, estima o executivo. Esse volume ultrapassa a produção brasileira de etanol, que é de cerca de 37 bilhões de litros.
Conforme Manzano, o crescimento desse mercado depende de três fatores principais: competitividade de preços, disponibilidade de motores que aceitem combustíveis renováveis e pressão para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
A indústria de navegação representa cerca de 3% das emissões globais, segundo o executivo, e enfrenta desafios significativos para diminuir sua pegada de carbono. Manzano argumenta que a tecnologia para motorização já não é uma barreira relevante para a adoção do etanol.
O navio utilizado nas operações pode operar com etanol, metanol ou combustível fósseis marítimos, conhecido como bunker.
Benefícios do etanol na navegação
Manzano destaca que o uso do etanol pode levar a uma redução de aproximadamente 75% nas emissões de carbono em comparação com combustíveis fósseis para navios. Este é, segundo ele, o principal benefício do biocombustível na navegação.
No entanto, o executivo ressalta que o etanol tende a custar mais do que a alternativa fóssil quando comparados diretamente. A vantagem econômica depende da possibilidade de monetizar a redução das emissões através de créditos de carbono, fazendo com que os custos possam se equilibrar, dependendo das condições de mercado.
O etanol utilizado nas operações em Santos é o etanol anidro de cana-de-açúcar, igual ao tipo usado no Brasil para mistura com gasolina. Manzano comenta que a oferta pode aumentar com melhorias na produtividade agrícola da cana, crescimento da produção de etanol de milho e ampliação da capacidade das usinas.
A Copersucar ressalta que o etanol fornecido tem uma cadeia de produção bem estabelecida e certificada. A empresa também destaca o potencial de expansão da cana em áreas de pastagens degradadas e a adesão aos critérios de sustentabilidade do RenovaBio, programa brasileiro de fomento aos biocombustíveis.
Planos de expansão internacional
Além de Santos, a Copersucar tem a intenção de estabelecer pontos de abastecimento em Singapura e nos Estados Unidos a partir de 2027. A empresa ainda não divulgou estimativas de volume para essas novas operações.
De acordo com Manzano, a implementação em outros países envolve adaptação a normativas locais, atualizações nas especificações técnicas e obtenção de autorizações portuárias. A experiência brasileira ajudou a desenvolver a operação em Santos, mas a expansão internacional ainda depende da conclusão dessas etapas.