A reabertura da Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, considerada uma das construções religiosas mais antigas e históricas de São Paulo, representará uma importante revitalização do patrimônio cultural e religioso da cidade. O evento ocorrerá neste sábado (27) e marca um novo capítulo na história deste icônico local.
Localizada no bairro da Liberdade, a capela foi parte do primeiro cemitério a céu aberto da cidade, destinado a escravizados, indígenas, indigentes e condenados à morte, instalado no antigo Largo da Forca em 1779. A reverência à memória destes grupos marginalizados faz parte da proposta de preservação que envolve a reabertura do espaço.
O evento de reabertura incluirá uma missa às 10h e irá celebrar os 247 anos da construção da capela. O restauro, que teve início em abril de 2025, recebeu um investimento de mais de R$3,2 milhões voltados para a modernização, acessibilidade e preservação do espaço histórico. A nova estrutura promete manter a essência do local enquanto incorpora melhorias significativas.
As reformas realizadas incluíram a adequação da iluminação, a reconstituição da fachada, a reconstrução do velário e a consolidação dos maciços em taipa de pilão, que apresentavam erosão severa. Os bancos, o telhado, e a sacristia foram restaurados, além da criação de um espaço para o sepultamento dos remanescentes humanos encontrados nas pesquisas arqueológicas. Um relógio, perdido na década de 1950, também será reintroduzido.
A acessibilidade é uma prioridade no novo projeto. O local agora contará com um mapa e piso tátil, além de recursos de áudio e intérprete de libras. Essas inovações visam garantir que todos possam desfrutar do espaço e sua rica história.
Em 2024, o projeto recebeu R$ 2 milhões por meio do edital do Proac, da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo de São Paulo e do Ministério da Cultura, em parceria com a Carollo Arquitetura e Restauro e a União dos Amigos Capela dos Aflitos (Unamca). Contudo, foi necessário buscar recursos adicionais para complementar as obras. Em 2025, a Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, liberou R$1,2 milhão para a Mitra Arquidiocesana de São Paulo, que é a responsável pela capela.
Revitalização e Descobertas Arqueológicas
A data de reabertura, 27 de junho, também celebra o aniversário da União dos Amigos Capela dos Aflitos (Unamca), fundada em 2018 para preservar a capela e sua história significativa. “A reforma da Capela foi muito requisitada pelos munícipes, principalmente da comunidade negra, para ter um espaço que conte parte de sua história no bairro da Liberdade. É uma grande realização poder entregar este espaço para a cidade”, afirmou Totó Parente, Secretário Municipal de Cultura e Economia Criativa.
A revitalização do espaço foi marcada por importantes descobertas arqueológicas, com a identificação de cinco a dez corpos sepultados, o que confirma o uso histórico da área como parte do Cemitério dos Aflitos, que esteve ativo até meados do século 19. A identificação dos sepultamentos evidencia a necessidade de se respeitar e contar a história de pessoas indígenas, africanas e seus descendentes.
Historicamente, as execuções de pessoas marginalizadas ocorria no Campo da Forca, que hoje é a Praça da Liberdade. Aqueles cujos corpos não eram mutilados eram sepultados ao redor da capela, o que enfatiza a relevância cultural e histórica do local.
A Capela dos Aflitos passou por diversas intervenções ao longo dos anos. Inaugurada em 1779, o espaço foi inicialmente menor e posteriormente expandido. Em 1890 e 1960, passou por reformas significativas. Em 1994, a capela sofreu um incêndio cuja causa permanece desconhecida, mas suspeita-se que tenha sido provocado por problemas na parte elétrica. O restauro que começou em 1995 não foi concluído.
Com o passar do tempo, a situação da capela deteriorou-se, agravada pela construção de um prédio adjacente que causou rachaduras e infiltrações. Em 2018, a Unamca foi criada para cuidar da manutenção da capela e buscar os recursos necessários para a restauração. A obra ao lado foi interrompida, permitindo assim um processo de ressignificação da área.
Além das reformas da capela, será construído um Memorial dos Aflitos, visando manter viva a história do bairro. Em novembro deste ano, mês da consciência negra, está previsto o lançamento de um livro focado nas escavações arqueológicas do local e na educação patrimonial, contribuindo para um entendimento mais amplo da importância do espaço na memória coletiva.