O Amazonas é destaque em vulnerabilidade ambiental, com uma alta concentração de municípios sendo classificados como prioritários nos indicadores de riscos ambientais e climáticos para crianças e adolescentes. Essa informação vem de uma nota técnica do Painel Crianças e Meio Ambiente, divulgada em julho pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela organização Vital Strategies.
O painel analisa 14 indicadores em quatro áreas fundamentais: qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar. Cada um dos 5.570 municípios do Brasil é classificado em um dos três níveis de prioridade, sendo que o nível 3 indica necessidade de ação imediata. A comparação é frequentemente realizada entre municípios de porta populacional semelhante.
De acordo com o relatório, as cidades com maior número de indicadores críticos estão concentradas na região Amazônica, incluindo estados como Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Dentre as 30 cidades com pior desempenho no país, 24 estão localizadas na Região Norte.
A Região Norte, com 450 municípios, apresenta a situação mais alarmante segundo o levantamento. Metade deste total possui nove ou mais indicadores em alta prioridade, enquanto 42,4% acumulam dez ou mais. Em contrapartida, a média nacional é de apenas 6%, e no Sudeste, apenas 0,1% dos municípios apresentam tal gravidade.
Secas no vale do Rio Negro
O cenário amazonense é particularmente preocupante no que diz respeito ao impacto das secas. O relatório destaca que os municípios do vale do Rio Negro e algumas cidades do Acre enfrentaram estiagens sem precedentes entre 2021 e 2025, resultando em alta prioridade nessa análise.
Esse padrão é inusitado, uma vez que tradicionalmente o Nordeste é a região mais associada a secas. A métrica utilizada no levantamento considera a mudança na frequência do fenômeno de seca atual, não o histórico de seca endêmica do semiárido nordestino.
O estudo também recomenda que este indicador seja analisado em conjunto com o de acesso à água, visto que as estiagens impactam diretamente o abastecimento humano, a produção de alimentos e a segurança alimentar das famílias.
Saneamento e qualidade do ar
Os indicadores relacionados ao saneamento reforçam a gravidade da situação na região amazônica. No Norte do Brasil, 78% dos municípios têm alta prioridade no acesso à rede de abastecimento de água dos adolescentes e crianças, 87% quanto ao esgotamento sanitário e 60% no que tange à oferta de água tratada.
Para as populações ribeirinhas, que dependem de rios para o abastecimento, esse impacto é especialmente severo. A contaminação dos corpos hídricos é um fator que contribui para a propagação de doenças infecciosas, afetando desproporcionalmente crianças pequenas.
Quanto à qualidade do ar, 94% dos municípios na Região Norte estão em alta prioridade, principalmente devido à concentração de partículas finas (PM2,5) em níveis acima dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde, um resultado que se deve, em grande parte, às queimadas. A exposição contínua a esse poluente tem sido associada a doenças respiratórias e ao comprometimento do desenvolvimento pulmonar na infância.
Os eventos climáticos extremos também contribuem para esse quadro alarmante: 91% dos municípios do Norte estão em alta prioridade para chuvas intensas, enquanto 60% enfrentam ondas de calor, que elevam o risco de internação e mortes entre crianças pequenas durante esses episódios.
No ambiente escolar, 71% dos municípios na região não oferecem infraestrutura básica como água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo, evidenciando assim o nível máximo de prioridade. O relatório recomenda atenção especial às escolas situadas em áreas rurais, indígenas e quilombolas.
O que diz a lei
O documento menciona que o novo marco legal do saneamento (Lei 14.026/2020) estabelece metas de universalização desses serviços até 31 de dezembro de 2033. A legislação determina que os contratos do setor garantam água potável para 99% da população e a coleta e tratamento de esgoto para 90% — um objetivo distante da realidade das regiões amazônicas.
Apesar deste cenário desafiador, a análise conclui que os resultados registrados em regiões como o Sul e partes do Sudeste são replicáveis, uma vez que decorrem de décadas de investimento em saneamento, gestão de resíduos e habitação. Para os autores, a melhoria nas regiões vulneráveis depende de políticas públicas eficazes, financiamento adequado e fortalecimento da capacidade de gestão dos municípios.
