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Vício em apostas pode ter raízes ainda na infância: entenda agora

O vício em apostas na adolescência é um tema que requer atenção, pois suas raízes muitas vezes estão fincadas nos primeiros anos de vida da criança. Psiquiatras e psicanalistas que atendem jovens e suas famílias notam que essa problemática não surge isoladamente, mas é o resultado de uma série de fatores que se acumularam ao longo do tempo.

De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Unifesp, mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos já apostou pelo menos uma vez no último ano. Destes, 55,2% estão na zona de risco ou apresentam transtornos relacionados ao vício em apostas. Essa realidade gera preocupações sobre o impacto nas suas vidas e na dinâmica familiar.

A explicação para a relação do vício em apostas com experiências da infância começa a se desenhar quando pensamos na forma como as crianças percebem o mundo ao seu redor. Um bebê, ao olhar para quem cuida dele, aprende a reconhecer seus sentimentos e a se relacionar com as emoções de forma saudável. Contudo, o que muitas famílias ainda não percebem é o efeito que as telas têm nesse processo.

Impacto das Telas na Desenvoltura Emocional

O olhar da mãe serve como um espelho, permitindo que a criança se veja e se reconheça. Entretanto, as telas não oferecem esse contorno afetivo. Segundo Jailza Peguim, psicanalista, as interações mediadas por dispositivos eletrônicos frequentemente capturam a atenção da criança por meio de uma saturação de estímulos, mas não conseguem proporcionar o acolhimento emocional necessário. Essa ausência de troca efetiva gera uma lacuna que pode se manifestar mais tarde como um comportamento compulsivo, especialmente nas apostas.

Esse vazio, construído nos primeiros anos, acompanha a criança até a adolescência, encontrando um ambiente propício para ser explorado. As plataformas de apostas, diferente das redes sociais, oferecem um elemento adicional: a incerteza da recompensa. Essa imprevisibilidade é um dos maiores fatores que alimentam a compulsão, levando os adolescentes a se envolvê-los cada vez mais.

O Ciclo do Vício e Suas Consequências

Flávia Anjos, psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral, afirma que o sofrimento do adolescente raramente aparece sozinho. Muitas vezes, ele vem acompanhado de vergonha, dívidas ocultas e vínculos rompidos. As famílias, em sua maioria, só percebem a gravidade do problema quando já estão dentro dele, dificultando a busca por soluções.

Os sintomas relacionados ao vício em apostas são frequentemente sutis, mas discerníveis. Adolescentes que checam o celular de forma compulsiva, que demonstram irritação ou sentimento de culpa após apostar, ou que apresentam dificuldades em dormir e se concentrar nos estudos, estão em uma trajetória preocupante. Como consequência, a tecnologia acaba sendo vista como a vilã na história.

A Gestão do Vício em Apostas

Essa atribuição de culpa à tecnologia pode ser considerada um mecanismo de defesa familiar. Ao focar no uso excessivo das telas, os pais evitam encarar a dinâmica que pode estar presente na relação familiar e as falhas na mediação emocional. Jailza enfatiza que o uso abusivo de tecnologias geralmente é uma forma de automedicação psíquica, e muitos pais também encontram-se cativados por seus dispositivos, criando um ciclo difícil de romper.

Diante desse cenário, as famílias que já enfrentam problemas relacionados ao vício em apostas na adolescência precisam evitar a culpa e a abordagem de controle excessivo. O caminho para a solução envolve a busca por ajuda especializada, dada a complexidade dos mecanismos envolvidos. É uma tentativa de romper com padrões disfuncionais que raramente se resolvem apenas com força de vontade.

Papel da Escola na Identificação de Problemas

A escola também desempenha um papel crucial nesta rede de suporte. Sua capacidade de identificar precocemente mudanças de comportamento em alunos pode ser um divisor de águas, aproximando os pais da situação e permitindo intervenções mais eficazes. É essencial que educators estejam atentos a sinais de que um aluno pode estar lidando com vícios e, assim, envolvam as famílias nesse processo.

O vício em apostas é um problema sério que pode afetar não apenas o jovem, mas toda da sua família. É imperativo que as discussões sobre o uso de tecnologias e comportamentos associados a jogos de azar sejam realizadas de maneira consciente e informada. O apoio emocional e a intervenção na infância podem, em última análise, prevenir o desenvolvimento de vícios mais tarde.

Por fim, a educação e o diálogo aberto sobre as armadilhas do vício em apostas são essenciais para construir uma geração mais consciente e preparada para enfrentar essas realidades.

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